domingo, 15 de maio de 2011
quinta-feira, 12 de maio de 2011
terça-feira, 10 de maio de 2011
Entro no quarto com o envelope na mão e tranco a porta. Vivo sozinha e, ainda assim, prefiro trancar esta porta e garantir que deixo do lado de fora o tempo, o som, toda gente, o mundo inteiro. Entra comigo apenas a aflição inevitável daqueles minutos ou horas por vir: a angustia do desconhecido que temo enfrentar.
A ausência de ti fez-se maior em mim neste dia. Na mão, trago o envelope. Somos apenas os dois nesse quarto fechado. Eu o seguro como quem tem uma arma que não sabe usar e que pode ser perigosa de repente. O envelope por si já diz quase tudo. Diz aquilo que eu posso presumir ou o que me convém presumir. Nada tão intenso comparado a essa tortura dos instantes antes de eu começar a ler e reler a verdade pura ou, talvez, arquitetada que ali se encontra. Haverá uma vida inteira pela frente sem que eu jamais saiba se é uma coisa ou outra. E o que importa? A verdade sempre será relativa do ponto de vista do outro que a vê e de nós mesmos intimamente.
Deito na cama, deixo o envelope ao meu lado. Que ele repouse e que eu repouse também. Olho-o com delicadeza como se eu olhasse a ti com a cabeça inclinada no travesseiro, o rosto virado pro meu, um semblante adormecido, tua respiração grave e ritmada como costumava ser. Passo os dedos pelo envelope. Parece um gesto de afeição. Não é. Existe a tímida tentativa em abri-lo de uma vez. Espalmo minha mão sobre ele, tenho os dedos bem esticados e depois começo a encolhê-los como se fosse amassá-lo. Paro. Não é um pedaço de papel que eu toco, é a minha própria vida, eu sei, ou a idéia que tenho dela, do que ela é, do que vai ser depois que eu abrir esse envelope, abrir a porta desse quarto e sair.
Quero sentir seu cheiro como a mulher que abre a tampa de uma panela esquecida no fogão da noite pro dia para certificar-se se algo azedou e se, por acaso, tenha mesmo azedado, lamenta a perda irreparável do que foi preparado com tanto trabalho. O odor do envelope pousado sobre o travesseiro não me revela nada e nem poderia. Faz tanto tempo que nem mesmo lembro-me do cheiro da tua pele. Não restou nada seu por aqui, somente os meus porquês que podem hoje encontrar respostas dentro deste envelope diante de mim.
Não há como continuar me consumindo nesta excitação de reter as palavras prontas a serem libertas. Ai de mim que ousei ser, um dia, livre por elas! Não tê-las era o que me aprisionava e quando as tenho, permaneço mais cativa dessa solidão que me causaste.
Coloco-me de bruços, viro o rosto pro outro lado. Tento fugir. Respiro fundo e me vem à cabeça a ideia de pegar o isqueiro na gaveta e incendiar o envelope na cuia de argila sobre a escrivaninha. Fazer o ritual do fim ou o ritual de um novo começo, quem sabe. Percebo-me exausta e quando penso em dormir, surgem as estúpidas indagações. Era para eu ter aberto aquele envelope assim que o peguei. Por que não o fiz? Encontro-me surpreendida pela covardia que se fez maior do que minha vontade. No momento em que você decidiu falar, eu preferi torná-lo mudo.
Sou frágil neste quarto onde me isolo, contudo estou certa de que aquele que não se reconhece fraco por um instante que seja nada entende de fortaleza. Não conhece a minha dor nem mesmo o meu amor aquele que não me olha nos olhos quando fala.
Adormeço e quando acordo não tenho noção das horas passadas. Eu tranquei o tempo lá fora. Estendo o braço pra trás e procuro o envelope apalpando o travesseiro. Deitada, abro-o com tranquilidade. É a tua letra, são tuas palavras em sentenças breves e longas. É você depois de dias, meses, estações do ano. As frases vão sendo libertas. Posso ler uma a uma. Elas sobrevoam minha cama e o quarto inteiro. Parecem agitadas, sobem até o teto, descem em ondulações, esbarram umas nas outras e nas paredes também. Entrelaçam-se, movem-se ligeiras. Meus olhos se confundem com elas. Corro para janela e algumas se enroscam em meus cabelos, umas querem me perfurar o crânio, outras tentam como flechas acertarem meu peito ou entrarem pela minha boca. Hesito. Fujo. Abro as cortinas e a claridade invade o lugar. As frases parecem mais perturbadas com a luz. Abro a janela e elas fogem, voam de pressa para fora e as vejo partir. Aos poucos, me acalmo. Não saio dali até ver a última desaparecer do alcance de minha visão atenta. Pronto, foram-se.
Vai demorar um pouco para eu compreender a totalidade do que me disseram, para digeri-las como me convém. Não tenho pressa. Não faz diferença. Há algo de alívio pairando ao meu redor. Um ar fresco vai chegando. Destranco a porta. O tempo, o som, toda gente e o mundo inteiro entram por ela meio desequilibrados, tropeçando sem jeito como se estivessem todos debruçados a me espreitarem, pegos de surpresa. Deixo que fiquem à vontade. Entrem! A vida retoma seu ciclo.
Eu… eu continuo sozinha e guardo boa parte daquelas palavras. Agora… agora, eu continuo sozinha mas de uma maneira diferente.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Deixo,mas nao me deixo .. Apenas esqueço,mas me volto,volto e digo Esqueça!Tudo o que o nada proporcionou.
Afago ou afogo e penso nada alem do que deixo pra traz..
Arrumo as malas para ir aonde nem ao menos sei chegar.Vou mas volto!
Volto e lembro de tudo o que deixei..
Mas..Afogo o afago e me despeço de todo o tipo de lembrança..!(nml)
